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Morador de Mirassol luta há 14 anos para provar que está vivo
Carlos Antônio da Silva, de 54 anos, teve o CPF vinculado ao da mãe falecida por engano. Ficou sem emprego, remédios e chegou a sobreviver com água e fubá
por Beatriz Silva
Durante anos, Carlos Antônio da Silva precisou provar algo que para qualquer pessoa parece óbvio: que está vivo. Mas enquanto seguia sua rotina em Mirassol (SP), tentava trabalhar e buscava atendimento médico, o sistema do governo registrava uma realidade completamente diferente: a de que ele já havia morrido.
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O erro burocrático começou em 2012, após a morte da mãe dele em um incêndio em Bocaiúva (MG). Por engano, os dados de Carlos foram vinculados aos dela e, desde então, o pastor de 54 anos passou a aparecer como falecido em sistemas alimentados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O problema, porém, foi muito além de um cadastro errado. A informação fez Carlos perder oportunidades de trabalho, enfrentar dificuldades para conseguir medicamentos e viver um período de extrema necessidade.
Sem conseguir emprego com carteira assinada, ele conta que chegou ao limite da sobrevivência. Em uma fase em que precisava apenas de uma correção no sistema, acabou enfrentando a falta do básico dentro de casa.
“Chegou um momento da minha vida em que eu tive que comer água com fubá, nem tempero eu tinha. Não tinha nada. Não tinha o que comer”, relembra.
Segundo Carlos, durante anos ele tentou conseguir uma oportunidade de trabalho, mas era impedido quando seus dados apareciam como se estivesse morto.
“Levei documento em várias empresas, mas não fichava porque meu nome estava em óbito. É muito humilhante”, afirma.
A descoberta do erro aconteceu quando ele tentou retirar um medicamento pela Farmácia Popular. Com uma receita em mãos, Carlos foi até estabelecimentos da cidade, mas recebeu a mesma resposta: o sistema indicava que ele estava morto.
“Eu fui em cinco farmácias e constava óbito. Depois fui fazer uma nova consulta no posto regional da cidade e também estava constando óbito”, conta.
Desde então, a vida dele passou a ser uma sequência de tentativas para corrigir um problema que não foi causado por ele. Carlos precisou recorrer à Justiça para conseguir acesso a medicamentos, inclusive os de uso controlado, já que também enfrenta problemas cardíacos.
Ele conta que o período de dificuldades afetou também sua saúde emocional. Segundo Carlos, enfrentou depressão enquanto tentava resolver uma situação que tirou dele direitos básicos.
Mesmo com decisões judiciais reconhecendo que ele está vivo, o problema ainda não foi completamente resolvido. Segundo o advogado Augusto Stuchi, que representa Carlos, ainda existem sistemas públicos onde a informação equivocada permanece registrada.
“O INSS alega que a culpa é do cartório de registro de pessoas. No entanto, existem provas nos autos de que a anotação equivocada foi feita pelo próprio sistema do INSS”, afirma.
Segundo a defesa, o erro também trouxe prejuízos financeiros, impedindo Carlos de acessar serviços bancários, como financiamentos e cartões de crédito.
Após 14 anos de luta, Carlos afirma que espera mais do que uma reparação financeira. Ele quer recuperar a dignidade e deixar de carregar o peso de precisar provar diariamente que está vivo.











